Ilusões em Prosa | 20 anos

abril 17, 2018



20 anos tinham passado desde o último adeus, que nunca chegou a ser definitivo. Desde aquela tarde primaveril, com as flores a desabrochar e o sol a aquecer o canto recôndito do jardim do bairro, seria o adeus para sempre. Mas para sempre é tanto tempo, principalmente quando se ama alguém.  Resistiram uns tempos. Ela andou a viajar, teve vários casos. Nem todos felizes. Nenhum deles tão forte como o primeiro. Ele casou com uma mulher que nunca se sentira a primeira opção, e muito menos desejada. Ela dedicou-se ao trabalho, sem nunca assentar. Ele abriu uma ourivesaria para apaziguar a falta de brilho da sua relação.

A vida deles seguiu caminhos diferentes. Mas nunca se conformaram com o destino. Esperaram uns meses. Nove. Contaram cada dia com ânsia e saudade. Ansiavam o reencontro, sem nunca forçar nada. Partilhavam um acordo tácito, em que teriam de deixar passar um tempo. Guardavam uma vontade do outro em silêncio, como por telepatia.

Nenhum deu o braço a torcer. Apenas se deixaram levar pelos caminhos da melancolia. Voltaram àquele jardim, o dia estava meio nublado e soprava um vento leve. Ela estava sentada por baixo da árvore grande, onde tantas vezes se amaram. Ele viu-a de longe, não a conheceu a princípio, e ficou desiludido por estar alguém na árvore deles. Ela reconheceu-o de imediato, hesitou com medo de ganhar falsas esperanças, mas rapidamente deixou o sorriso abrir-se, iluminando-lho o rosto. Ele percebeu que era ela e teve de se conter para não correr e parecer o mais descontraído possível. Foi um encontro constrangedor, cheio de desejo e contenção.

Decidiram manter o contato. Viam-se casualmente. Primeiro, uma vez por mês, depois de ele se divorciar, com mais regularidade. Não voltaram a ter uma relação séria. Cediam às tensões ocasionalmente. Preferiam a conversa. Melhor só os silêncios que diziam tudo. Estavam com outras pessoas, se lhes apetecesse. Não deviam explicações um outro, porém partilhavam tudo um com o outro. Conheciam-se melhor que ninguém. Pertenciam-se. 20 anos passaram e o para sempre fazia agora sentido.


Marisa

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