16 de julho de 2017

Ontem não existi


9h30. Pego no telemóvel, ligo a net e dou aquela olhadela básica e rápida pelas redes sociais. Ontem foi sábado, o segundo dia do festival da zona e o resultado são os morais do Facebook e do Instagram cheios de fotos do 'ambiente' no Ocean Spirit, de pessoas no Ocean, do Virgul no Ocean... Resumindo, foi toda a gente para um festival de verão, com o pé na areia, ouvir "I need this girl in my life". Ah e tirar fotos e filmar. Claro! Sortudos.

Eu não fui. Tive pena. Gosto do Ocean e do Virgul. Seria uma combinação perfeita. Mas não fui. Por isso não tenho fotos na fila para entrar, no recinto, a comer um gelado, do pé descalço, da imensidão de pessoas, do cantor, selfies com as 'migas'. Tanto faz. Faltei a um dos melhores dias do festival a que vou (quase) sempre. Então, 'não existi'.
Bem, tenho uma ótima justificação. Fui a uma festa de anos de alguém muito importante para  mim. Estive lá, de corpo e alma presente. Vi pessoas, e as pessoas viram-me. E não eram poucas. Falei com pessoas, e as pessoas falaram comigo. Não conhecia metade das pessoas que lá estavam. Provavelmente já teria visto grande parte deles. Não interessa. O que importa é o aniversariante. E quais cantores famosos com músicas boas, festivais divertidos, entradas grátis... Ontem era o dia dele, era com ele que queria estar.

A grande questão é: não tirei fotos. Por acaso, reparei que uma ou duas pessoas o fizeram num determinado momento. Se houve mais cliques de fotografias, passou-me ao lado. Eu não tirei nenhuma e não acredito que tenha sido apanhada em nenhuma. Se alguma daquelas pessoas postar uma foto de ontem, eu não vou lá estar. Também não as deverei ver. 

Na realidade, eu ontem existi. Eu existo todos os dias, tal como tu, que estás a ler este texto. Mas não há nenhuma foto minha, muito menos em redes sociais, a 'provar' que fiz algo, que estive num determinado sítio, que me diverti, que convivi. Isso é muito normal na minha vida. Passo muito tempo em redes sociais, mas não são muitas as vezes que documento o que realmente faço. Por norma, aprecio o momento e esqueço-me de tirar muitas fotos. Tiro fotos em concertos. Isso gosto sempre de registar. Um aniversário, uma ida ao teatro ou a uma festa com amigos... Raramente registo em fotos. 

Quer isto dizer que, para o mundo, ontem 'não existi'. E tantos outros dias em que acontece o mesmo. Porque parece que uma coisa só acontece se tirarmos a foto. Podemos nem gostar de onde estamos, mas somos super 'top' e sociáveis, sempre in, só porque temos uma foto num sítio da moda, numa festa privada. #party #friends #bestnightever. A última mesmo que nem se tenha gostado assim tanto, e 'melhor noite' desde a última vez que se usou a hashtag (na semana passada) e só até à próxima vez que se a voltara usar (na semana seguinte). Porque 'existir' é isto, pegar no telemóvel, tirar fotos e fazer vídeos. Os suficientes para fotos no Instagram, Facebook, InstaDirect, Snap (diz que se usa este, nunca experimentei). Não esquecer dos diretos no Instaram, diretos no Facebook. Socializar, divertir, aproveitar. São apenas verbos. Não significa que se tenha que os realizar. O virtual é muito mais importante que o real.

Não contem comigo. Adoro fotos. Tiro quase muitas, não público metade. Sou um bocado tímida, mas gosto de falar com as pessoas. Gosto de apreciar o momento, sentir, e guardar na minha memória. Porque os bons momentos prevalecem na memória de quem os vive, de uma maneira única. Ao contrários das fotos, que são interpretadas consoante quem as observa. 

Afinal, parece que ontem existi. Porque para mim existir, é desfrutar. Partilhar com quem está presente, e não para não sei quantos que, como eu, para matar tempo, ligam as redes sociais e fazem scroll pelos murais enquanto põem "likes".


Marisa

5 comentários:

  1. Revejo-me neste texto!

    https://jusajublog.blogspot.pt/

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  2. Olha mas eu não te seguia e já retifiquei a situação! ;)
    E sim.. agora perde-se mais tempo a tirar fotos aos concertos do que a vivê-los.
    Beijinho

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  3. Como te percebo, sou capaz de publicar mais no blogue no que no meu facebook pessoal. Somos uma geração que vive de fotos e partilhas e cada vez menos de aproveitar o momento. Obrigada pelo teu comentário ;)

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