10 de março de 2017

Ilusões em prosa

Ele estava de costas para a galeria, enquanto apreciava um quadro enigmático com o olhar de uma mulher rodeado de manchas em tons vermelhos. Pensava nela. Tinha-a visto assim que chegara. Pensava como deveria abordá-la, no que poderia dizer. Tinham amigos em comum, conheciam-se há algum tempo, sabiam algumas coisas um sobre o outro, falavam o básico. Ambos gostavam de arte. Ela mais do que ele. Foi aquela exposição porque ela comentou, numa saída entre amigos, que iria lá estar. A pintura é bonita, mas há uns meses, que ela era a sua arte predilecta. Tão simples e tão complexa. Tão desastrada e tão encantadora. Só a queria ver. Só queria um momento oportuno e a coragem para lhe falar de coração aberto. E ela, será que estaria aberta a ouvir tudo o que ele teria para lhe dizer?


Fechou os olhos durante cinco segundos. Não podia acreditar no que vira. estava a ler a legenda de um quadro com flores em tons rosa e grená, quando o viu de relance quando ele entrou no edifício. O que ele faria ali? Ela tinha comentado no último fim de semana que iria estar naquele local, mas não diretamente a ele. Na altura, ele até parecia concentrado noutra coisa que não nela. Como se demonstrava. Tentou afastar a ideia de que ele fora à exposição só para a ver, Por mais que gostasse dele, acreditava veementemente que lhe era indiferente. 

Ele olhou para ela nesse mesmo instante. Olhava-a, de olhos bastante abertos, com o carinho e interrogação que só um louco apaixonado poderia olhar. Mais uma vez não teve coragem. A loucura não era mais forte que o medo de vacilar, que a probabilidade de negação. Voltou costas, pegou numa brochura da exposição e preparou-se para sair. Quando ela abriu os olhos ele já se encontrava de perfil. Ficou a observá-lo enquanto ele saía do edifício. Pensou que nunca iria ver em si mais de que alguém que vê às vezes quando sai com certos amigos, sem conseguir a imaginar a intensidade do brilho do seu olhar enquanto a admirava. Ele caminhou sem destino a pensar que tinha sido ignorado, mal sabendo o quando era desejado.

Em meses se amaram em segredo, segundos se abraçaram sem o saberem. Estavam ligados como a raiz de uma árvore centenária ao solo onde se encontra. Estavam separados por um muro de uma prisão chamada medo de rejeição. 


Marisa

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