16 de janeiro de 2017

Ilusões em prosa

Ele chegou e sorriu. Estivera fora tanto tempo, que os dias deixaram-se de poder contar. Ela recebeu-o de braços abertos. No fundo algo lhe dizia que não o devia fazer, que devia manter a distância, que iria sair magoada mais uma. No fundo sabia que ia ser só mais uma passagem, como de tantas outras vezes que se entregou por inteiro a algo passageiro. Ele ia e vinha quando queria. Ela recebia-o sempre abertamente e com a maior satisfação, enganando-se a si mesma que desta vez iria ser diferente. Ele seria sempre o mesmo. Ela acreditava que as pessoas podiam mudar. 

Ele chegou e sentou-se, narrou-lhe histórias das suas aventuras, descreveu-lhe sítios por onde tinha passado, contou-lhe piadas. Ela suspirou, imaginou-se ao seu lado, por todos aqueles sítios, riu alto e bom som de cada palavra.
Discutiram pontos de vista, trabalho, vida pessoal, futebol, política e o último escândalo da sociedade. O som da voz dele era a mais harmoniosa música para ela. O eco da gargalhada dela era um regresso a casa para ele. Passaram horas num café. Na hora da despedida combinaram outro encontro e depois outro e mais outro. Passaram por cafés, parques, praias, hotéis. Parecia que seria agora que tudo se iria compor, que ele iria ficar, que o para sempre existiria. Nem tudo é o que parece. Ele deixou de chamar, ela deixou de insistir. Era um final como tantos outros, coberto de silêncio e vontade.

Ele só não a queria magoar. Pena ter ter-se lembrado disso tarde demais. Ela não se queria iludir. Pena só conhecer o mundo da ilusão. Ele voltou para as suas aventuras, para as suas viagens, para o seu mundo. Ela continuou o seu caminho, sempre a olhar para trás, na esperança que por qualquer encruzilhada que passasse o fosse encontrar novamente. Desta vez para sempre. Nunca seria para sempre. Ele teria a sua vida de loucura. Ela teria os seus dramas e as suas aventuras com ele na mente. Ele voltaria quando e se quisesse. Ela esperaria-o sabendo que estava errada e, caso ele voltasse, receberia-o com tudo, com a noção da dor de o ver novamente partir, e alegria de o ter a seu lado a viver na ilusão.



Marisa

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