29 de novembro de 2016

Carta perdida no tempo

És uma recordação. A figura do que passou. A presença do passado que não quero abandonar. Quero guardar-te, ter-te esporadicamente para não apagar as doces memórias, as velhas histórias. Já tenho que deixar tanto para trás - todos temos, é verdade - não me faças deixar-te a ti também. Largar-te seria largar-me. Não pelo que és, propriamente, mas pelo que representas. O passado feliz e a esperança de um futuro sorridente, Não me perguntes porquê. És porque eu quero sem razão nenhuma aparente e por tantas razões das quais não vale a pena falar, e que, algumas, já nem fazem sentido. És porque sim. E porque sim é resposta, porque eu quero que seja assim. És, então, o meu passado e sem o meu passado eu nada sou. Deixa-me ser eu, livre e de mim mesma, mas contigo sem te ter aqui, a não ser num carinho especial que em te guardo. Deixa-me guardar-te e levar-te para o futuro e guardar o meu passado.
Eu não sou nada sem o meu passado. Deixa-me manter-te como símbolo, como linha histórica. Uma espécie de porto de abrigo a que posso voltar sem deixar de ser feliz. Dizem que não se deve voltar onde já se foi feliz, mas eu teimo em fazê-lo. Só o consigo fazer sem me sentir deslocada, porque sei que as coisas mudam.

Nada se mantém. Eu mudei. Tu mudaste. Os sítios mudaram. O mundo mudou. As lembranças também mudam, consoante o passar do tempo. Nada se mantém igual mas eu quero manter-te. Apenas como figura de sorrisos, brincadeiras, crescimento, confidencias, mudanças. Sempre as mudanças, já viste?

A mudança está na base da vida. Mudam-se as fases da vida, mudam-se as estações, mudam-se as personalidades, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Menos a minha vontade de manter por perto, lá está.

Na verdade, até essa muda. E ainda bem. Adoro-te, mas era tão difícil estar tão apegada. Sabes que às vezes apegarmos demais pode não ser muito simpático, não é... Agora é diferente. Mudou. Mudança, sempre mudança. É bom ter-te sem te ter. Saber que estás lá se eu precisar. Não querer estar sempre "aí".

Há alturas em que me expresso mais. Em que, se calhar, ainda exijo demais. Às vezes é preciso. Há momentos mais difíceis e sabes que eu tenho tendência  a recolher-me a quem mais confio. Não confio em muita gente, por isso desculpa qualquer dia mais maçador da minha parte. E obrigada por estares aí, mesmo que seja a poucos por cento. É bom ter-te.

É bom manter-te. Até amanhã, até um dia, até sempre. Sem obrigações nem pressões. Sem data ou hora marcadas. Na iminência de um reencontro. Na recordação de um sorriso passado. Na esperança de um abraço futuro. 


Marisa

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