9 de outubro de 2016

Quadro da memória

Vai sozinho por um caminho que não aparenta início ou fim. Segue curvado, amparado na velha bengala de madeira, a sua única companhia numa caminhada solitária de quem já viu muito no pouco, que verá pouco no muito e que já pouco terá a perder.

Vejo-o do alto de uma ponte e pergunto-me de onde vem, para onde irá. Questiono o porquê de um senhor, que aparenta ser um idoso com pouca força, estar ali num estreito caminho, sozinho, por entre montes e vales sem nada à volta, sem um único vestígio de uma casa, ou de outra vida sem ser a dele.


Escrevi este texto há quase um ano, numa viagem para o Algarve onde, no meio da auto-estrada em pleno Alentejo vi este senhor, sozinho, com um aspecto frágil, e ainda hoje me lembro dele, vejo-o como o retrato do isolamento dos idosos em Portugal que vivem em aldeias longe de tudo e sem condições, e ainda hoje me pergunto de onde vinha e para onde ia... A sua imagem é como uma fotografia desfocada na minha mente, mas está lá, e faz-se notar no meu pensamento de vez em quando. 


Marisa

3 comentários:

  1. Haverão muitos mais por este país, infelizmente. Parabéns pela tua sensibilidade, provada pelo destaque que deste ao que viste e como isso te tocou.

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  2. R. Experimenta agora sfv :)
    Eu gosto de fazer tudo com alguma antecedência ihih

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