3 de outubro de 2016

Haja perseverança, haja mudança.

A residência não é a minha casa, falta-me aqui a privacidade e o conforto de um lar. A casa é lar, é conforto, é privacidade, é o meu canto onde posso espatafurdiar à vontade, incluindo inventar palavras como espatafurdiar, sem ter que me preocupar se há alguém desconhecido à volta, é onde posso sujar a loiça e deixar por lavar e arrumar só porque sim, é onde não tenho que deixar a casa de banho impecável naqueles dias em que estou mais à pressa, é onde estou à vontade sem me preocupar se incomodo alguém, claro que há sempre o resto da família que mora lá em casa mas eles fazem parte do conforto e sendo um presença desde a eternidade estão incluídos no que é a privacidade.

Aqui tudo é diferente. Há pessoas diferentes, de culturas diferentes, com horários diferentes, educações diferentes, personalidades diferentes. A toda a hora há pessoas a entrar ou a sair ou a andar de um lado para o outro nos corredores cheios de ecos e nos quartos adornados de objectos que se podem rastejar no chão. portas a bater, pratos e talheres a tinlintar na cozinha, canalizações a trabalhar na casa de banho e pessoas a falar, ou a cantar, ou rir. Ruído e confusão serão as palavras ideais para descrever a residência. É difícil ter horários "decentes" por aqui, principalmente para quem não gosta de grandes confusões e "tudo ao molho e fé em deus". Tomar banho é melhor a meio da tarde, jantar depois das nove e meia e dormir só se consegue a partir da meia noite e meia ou uma da manhã, depois de inúmeras voltas na cama, quando o cansaço fica mais forte que todo o rebuliço do outro lado da porta do quarto.

O quarto. Ai o quarto, aquele que sempre foi o meu sítio preferido em casa... O quarto é partilhado, e ainda por cima pequeno. Não tenho queixas da minha colega de quarto, já falei disso anteriormente, conseguimos dar-nos bem e respeitar-nos o máximo possível tendo em conta as nossas diferenças horárias de entrada e saída. O quarto não é "meu", porque não é só para mim. Tenho a minha cama, a minha cadeira, a minha gaveta da mesinha de cabeceira, as minhas metades do roupeiro e do móvel pequeno e a minha escrivaninha. A escrivaninha é o que tem mais ar de meu pelo simples facto de ter os cadernos e livros numa das prateleiras.

A arrumação não é a pior de sempre, mas também não é a melhor. Dá para agora, quando vier o frio e tiver que trazes as roupas quentes é que vai ser pior. Neste momento tenho (quase) tudo aqui no que diz respeito a roupa usável nestas temperaturas, quando vou a casa levo a roupa para lavar e uma ou outra peça para usar, já que deixei lá pouca coisa e ainda tenho uns 3 dias de fim de semana, Ando constantemente com a mala às costas. Tralha para lá, tralha para cá. Fazer malas à segunda antes de vir, desfazer quando chego, voltar a fazer a mala à quinta para na sexta ser só "pegar e andar" e voltar a desfazer na sexta quando chego a casa.

Comecei a adorar as sextas. Duas horas de uma aula que, até agora, não me diz muito, ir a correr para a residência, apanhar um maldito e confuso urbano, sentir-me sortuda por chegar a tempo à estação, uma viagem turbulenta de comboio e finalmente Torres. A primeira paragem é na minha segunda casa, almoçar na geladaria dos primos, passar um bocado com eles enquanto está pouco movimento e descontrair um bocado, enquanto se satisfaz a gula no derreter de um gelado, até à hora do autocarro. Depois casa, a primeira casa, andar cinco minutos a pé da paragem até casa e dizer boa tarde a toda a gente -  porque na terrinha toda a gente cumprimenta toda a gente - chegar a casa, largar as coisas, depois tenho duas hipóteses ou tenho a Princesa em casa e abraço-a ou ela está na casa da tia e vou ver a tia avó que mora mesmo ao lado e só depois vou a casa da tia ter com a Princesa, dar-lhe um abraço e ficar chocada com as saídas altivas e que deixam todos sem resposta.

Começo a sentir que não sou de lá, nem sou de cá. Tenho os meus pertences e os dias divididos entre Torres e Leiria e isso é estranho. Não é mau, também não é excelente, é apenas estranho e diferente, algo que ainda se está a começar a enraizar.

A residência não é o meu lar, Leiria (ainda) não é a minha cidade, mas aos poucos as coisas vão ganhando forma e vou sentindo-me mais confortável. É tudo uma questão de tempo, de força e de vontade.

Haja perseverança, haja mudança.

Marisa

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