28 de setembro de 2016

Chilling

Uma das maiores desvantagens de viver numa residência é o barulho. Somos muitas, dividimos o quarto, há vários corredores e vários andares, temos horários e rotinas diferentes. Somos diferentes em praticamente tudo, mas é questão dos horários e das rotinas que se torna mais difícil de digerir. Venho de um sítio pacato, uma aldeia pequena onde o barulho à noite existe, mas não é extremo e é de há tantos anos que já faz parte da "banda sonora" dos dias. Aqui tudo é diferente. Há barulho a toda a hora, são as pessoas que gritam, são os banhos, são os secadores, são os passos nos corredores, são pratos e tachos nas cozinhas, são as chaves nas fechaduras, são as portas a abrir e a fechar, são coisas a arrastar noutros quartos, Não me posso queixar da minha colega de quarto, que, apesar de termos horários diferentes, conseguimos orientarmo-nos  na medida do possível. Respeitamo-nos mutuamente, e isso é importante, fundamental.

Para além do barulho da residência há também o da rua, muitos carros, muitos carros, muitos carros, isto sem contar com as vezes que passam aviões de treino militar, que, por norma, não passam há noite. Há também muita luz. Luz que vem da rua pelas falhas dos estores, luz que vem do corredor pelo desnível da porta. Luz e mais luz.

Esta semana tem sido mais apertada, as aulas já começam a ser "a sério" já há coisas que estudar, já há trabalhos para fazer, contudo estes ainda se encontram em stand-by. Como decidi começar a cozinhar qualquer coisa cá para me alimentar melhor e não correr o risco de daqui a duas ou três semanas estar com um ar anoréctico também influencia o tempo e mais coisas para fazer. Pelo menos tenho comido melhor que a semana passada. A nível de barulho, esta semana também tem sido mais caótica, vê-se (e ouve-se) mais gente na residência e mais movimento leva a mais barulho.

Tem sido difícil descansar. Eu sou daquelas pessoas que precisa mesmo de descansar, de dormir, de momentos de silêncio, de alcançar o nirvana e ter os meus momentos de tranquilidade. Tem sido impossível ter isso tudo aqui. A noite passada foi para esquecer. Saí até não muito tarde. Meia noite já estava pronta para me deitar. Meia noite para um universitário é o início da noite, as oito/nove horas para qualquer outra pessoa, dirão vocês. Talvez, até consigo concordar com os exemplos que tenho, mas eu não estou habituada a sair até muito depois da uma da manhã, por isso meia noite é o meu recolher normal, depois de saídas. A hora a que cheguei é apenas um pormenor factual, não teria problema se tivesse conseguido adormecer, mas, lá está, meia noite é só o início da noite para a generalidade dos estudantes, e o barulho estava insuportável. O barulho e movimento aliados a um turbilhão de coisas a entrar em ebulição no meu cérebro geraram uma insónia do pior. Estive muito tempo para adormecer e quando o fiz, não dormi profundamente, apenas passei pelo sono e por muitos sonhos que não ficaram registados na memória, apenas a noção de que existiram.

Hoje era para ter saído, jantar de aniversário de uma velha amiga. Gostava tanto de ter ido, de estar com ela neste momento. Não consegui. O cansaço acumulado e este calor sufocante que nunca tinha sentido este ano, nem nos dias mais quentes do verão - é o que dá estar num sítio que não tem a brisa e a humidade da beira-mar do Oeste - deram cabo de mim, fiquei com uma enxaqueca enorme e um estado de nervos considerado. Mal conseguia estar de pé e ter os olhos abertos era, por si só, um enorme suplício. Tive que dizer que não podia ir ao jantar, sinto-me horrivelmente mal por isso, estamos perto uma da outra cinco anos depois de termos seguido caminhos diferentes e não consigo estar no seu aniversário e ser "o par" de outra velha amiga que, assim como eu, não conhece mais ninguém que ia ao jantar. Teve que ser. E como se costuma dizer "o tem que ser tem muita força". Também teve que ser deixar os apontamentos e trabalhos de lado porque não conseguia ler nada, escrever nada, pensar nada. Tentei dormir uma sesta. Inicialmente não consegui, tomei um comprimido para a dor de cabeça, pus os fones sem ligar a música só para abafar o som que me rodeava, recostei-me a ler um livro para ajudar a relaxar, sinto que foi um capítulo perdido por falta de concentração, mas o fim foi alcançado, por fim tentei bloquear ao máximo as fontes de luz e deitei-me, consegui adormecer facilmente e só acordei com o telemóvel a tocar duas horas depois. Fiz um daqueles jantares super softs de chá, sandes e fruta e vim escrever. Supostamente ia escrever um pequeno texto, mas a minha vontade e necessidade de escrever era maior do que imaginava e aqui estou eu a alongar-me numa grande reflexão sobre o cansaço. Que assunto desinteressante. Não importa, sentia falta de escrever.


Marisa


2 comentários:

  1. Às vezes precisamos disso mesmo, por de lado determinados planos para que consigamos recuperar as energias. Ninguém é feito de ferro e chega um dia e estamos mortos de exaustão. Compreendo-te. Nunca vivi numa residência mas acredito que seja difícil descansar sendo que as pessoas tem todas horários diferentes. Não é um assunto desinteressante e sim uma verdade :) gostei do blogue

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    1. Obrigada R. Sim estava mesmo a precisar. Para além de ser um sítio barulhento é algo a que ainda me estou a habituar

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