10 de maio de 2016

Ilusões em prosa

Do meio da minha insónia da noite passada surgiu este texto que é misto de realidade, imaginação, ilusão...

Quatro e meia da manhã. Dentro de casa habita um silêncio ensurdecedor, evidência-se a escuridão. Estou acordada, dou voltas e voltas na cama, numa luta contra a insónia, comandada pelo sono que não se consegue impor. Não sei se vivo acordada ou permaneço a dormir de olhos abertos e tudo à minha volta não passa de um sonho confuso com imagens meio desfocadas e os cantos desvanecidos como os sonhos que aparecem nos filmes.

Lá fora a chuva, que era apenas um murmúrio, começa a fazer-se notar cada vez mais. É a melodia do lamento, o lamento da vida, que se intensifica à noite, porque à noite, por entre sono, sonhos e escuridão, todo o sentimento fica mais intenso. Intensos também, são todos os sons que surgem, esporadicamente, do exterior, à medida que a madrugada avança, que no meio de silêncios cada sussurro parece um grito louco com eco.

Por entre as gotas grossas da chuva que teima em permanecer fora de tempo - ou dentro do tempo, que agora o tempo já não tem tempo certo e é apenas mais uma relatividade da vida - oiço o carro do padeiro no início de mais um dia de trabalho, enquanto o resto da vizinhança ainda está a meio do seu descanso. Foram poucas as vezes, mas já me cruzei com aquele carro em excecionais chegadas a casa tardias. Vejo-o mais vezes mentalmente, aquando das minhas insónias, na escuridão do meu quarto onde visualizo também os carros que vão chegando com jovens vindos de mais uma noite de loucura nunca discoteca ou num bar da moda. Também eles se cruzam com o carro do padeiro sem pensarem que naquele carro segue um lamurio de quem gostaria de saber o que é dormir a manhã na cama depois de sair até de madrugada. Quem volta, às primeiras tentativas do clarear da madrugada, depois de mais uma noite de folia, não pensa em nada, não se lamuria. Pelo menos na hora, talvez mais tarde quando a maioria já estiver na correria diária, quando o padeiro estiver no final do seu trabalho, e eles  ainda estão a acordar, ou pelo menos a tentar

Já quem está acordado de madrugada, como a minha alma solitária, que se continua a virar e revirar na cama grande demais para o vazio do seu coração, pensa em tudo. Penso em tudo, no meio de uma insónia que no início se devia a horários trocados, e com o rolar dos pensamentos excessivos sobre tudo o que é, o que não é, o que foi, o que não foi, o que será, o que nunca se saberá, rola também o tempo que vai passando. E à medida que os ponteiros do relógio avançam o tempo para descansar diminui, o cansaço aumenta, as pálpebras querem fechar, a agitação teima em não cessar.


Marisa

Sem comentários:

Enviar um comentário