16 de abril de 2016

Ilusões em prosa

O dia estava cinzento, sentaram-se numa esplanada por pouca vontade dela e muita insistência dele. Um café e uma garrafa de água, por favor. Aquele pedido básico de quem vai para uma esplanada apenas para conversar e não porque lhe apetece muito consumir isto ou aquilo. Aquele pedido básico de quem o que lhe apetece mesmo é desfrutar da companhia e da conversa de quem está sentado na cadeira ao lado, mas que quer fazê-lo num local neutro e movimentado para que os olhares silenciosos não pareçam tão constrangedores.

- Está frio! - diz ela, ainda contrariada por ter ficado no ambiente de vento e frio da esplanada.
- Anda cá que eu aqueço-te... - responde ele.
- Aqueces-me?! Como se fosses capaz de aquecer alguém... - brinca ela.

A conversa flui naturalmente e descontraída, mas na melodia de cada frase há um toque de sedução mútua, um teste aos limites da tensão.

- Eu abraço-te! - continua ele, com um ar mais sedutor e estranhamente sincero do que o normal, enquanto se chega para junto dela e a abraça

Ela estranha aquela ação, mas não quer sequer questioná-la, sabe-lhe bem, deixa-se levar e aconchega-se no seu abraço, abraça-o também e encosta-se à cabeça dele.

- Chateia-me esta tua mania de vir para esplanadas quando está frio... - diz ela para quebrar o silêncio e a tensão.

Sempre a tensão a tomar conta dos momentos mágicos de silêncio.

- Queres que o deixe de fazer por ti? - pergunta sereno
- Não. Não quero que mudes por mim, quero que sejas quem és sem te esqueceres de mim. - sussurra ela.

A conversa prossegue em sussurros, à sua volta as pessoas passam, falam, correm, eles não dão por nada, para eles o mundo parou, deixou de existir mundo para além daquele abraço e sussurro.

- Não esqueço
- Não esqueces mesmo?!
- Eu quero ser quem sou contigo! - diz ele antes de um beijo lento e prolongado.
Ela corresponde, sorri-lhe no final - Também quero ser eu contigo.

Marisa

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