26 de agosto de 2015

Privilégios à beira-mar

Um dia escrevi um poema que começava com "Liberdade é o cheiro da maresia pela manhã", na verdade liberdade não é só o cheiro da maresia pela manhã, é ter o mar a meu lado todo o dia, todos os dias, é poder respirar o ar puro e sentir o bater das ondas no meu coração. O mar não é um fenómeno da natureza, é um amigo.

Sinto-me uma privilegiada por viver a minutos de uma praia linda e calma, onde posso descansar, onde há (poucas) crianças a brincar nas poças, onde há pessoas há pesca, onde se vê barcos locais à pesca, barcos à vela a passar e de vez em quando um outro navio lá ao fundo no horizonte nos vem dizer adeus.

Sinto-me uma privilegiada quando abro a janela de manhã e vejo o mar lá no fundo a sorrir-me e que mesmo nos dias de nevoeiro em que não o consigo ver sei que está lá, e ao fim do dia quando vejo o pôr-do-sol da mesma pequena janela o mundo pára, os problemas desaparecem e a vida sorri, o mar sorri-me.

O mar sorri-me sempre que o visito. Esteja ele calmo e claro, esteja ele escuro e turbulento. Sorri-me sempre e diz "calma, eu estou aqui, estarei sempre" e eu sorrio porque ele me sorri mesmo que mais nada nem ninguém me sorria.

Encontrei este poema que não me lembro quando o escrevi, mas decerto que foi há uns 2 ou 3 anos e o sentimento continua a ser o mesmo



Vivo numa praia deserta
Onde só eu e o mar apenas
Lá paramos

Numa praia cheia de pegadas
De e para todas as direções
Deixados por quem lá passou

Vivo numa praia com o mar
E dela não quero sair,
Nasci do mar
E só a ele me entrego,
Só a ele me confesso

São as suas ondas
Que dançam para trás e para a frente
Que me fazem mover,
É o seu cheiro a maresia
Que me faz respirar

Percorro a praia de uma ponta a outra
Seguindo as várias direções das pegadas
Que a marcaram, jamais apagas
Mas no fim do dia
Paro só e deixo-me encantar
Virada para o horizonte do meu mar
Descubro que é este o meu caminho
É onde me quero perder e encontrar

Sou uma livre dependente
Da maré que o mar me ditar

Por vezes sinto-me presa
Bloqueada de qualquer movimento
Apenas posso voar com o pensamento
Junto das gaivotas libertinas
Quando a maré cheia me encurrala

E outras vezes quando a maré esta vazia
Sou a liberdade encarnada no ser humano,
Canto, danço, corro, salto sem pudor
Tenho um mundo a meus pés
E percorro de lés-a-lés
Desfrutando de todo o seu esplendor

Estou timidamente protegida pelas imensas arrimas
Que me são tão intimas
Pela experiência de as percorrer
Com os seus altos e baixos
Talhas das vivências
Que me assombram,
Que me agasalham

Na malhada serrada
Que separa o areal mar
Caminho na corda bamba
Sem certezas de nada,

Conto apenas com as minhas proezas
Para me manter equilibrada
Nas pedras escorregadias
Que aparecem sem avisar

Elevo-me triunfante
Rainha do meu mundo à beira-mar
Numa rocha alta bem segura
Nesta minha escolha de vida
Que perdura


Esta a minha praia, o que me faz ter orgulho na minha terra, o orgulho da minha terra. E hoje, depois de uma doce tarde de praia, daquelas tardes de praia que me enchem a alma, eu, o mar, a areia e o sol despedimos-nos assim.




Marisa Maria

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